Por que não eu?

Que as palavras têm peso a gente já sabe. Os mais pudicos que o digam. Mas quando temos que nos autodenominar alguma coisa ou ainda responder uma pergunta com a palavra DESEMPREGADO é que realmente conseguimos usar uma unidade de medida para descrever a sensação; unidade essa que talvez seja em toneladas;

Sempre é estranho viver uma situação nova, assim como nunca deixa de ser aprendizado como diriam os mais otimistas de plantão.

Há poucos meses resolvi que a cidade que morei 8 anos, me graduei, trabalhei, fiz amigos pra vida toda e a qual eu gostava (e gosto) muito, não tinha comportas fortes que segurassem os transbordamentos dos meus sonhos. Decidi que o emprego que eu tinha e, também gostava de tê-lo, tinha durado o tempo suficiente para me dar a experiência necessária (e sustento também). O título de professor universitário, por mais pompa que possa parecer ter (ledo engano; estão aí meus colegas de profissão para falar), já não só, não me servia mais, como apertava no colarinho naquele momento.

Depois de pensar e fazer mil planos deixei alguns amigos com a promessa e esperança de quebrar as barreiras da distância e atravessei dois estados, passando pelo meu de origem, e desembarquei no Rio de Janeiro onde estou desde então.

Vim para participar de um processo seletivo e depois de 3 fases eu não passei para última etapa que procurava alguém com o perfil da empresa. Acho que não passei o bambolê pelo corpo sem soltar a mão do coleguinha do lado com a desenvoltura e agilidade que a instituição buscava no perfil; ou ainda não usei com destreza manual a cola, a tesoura, as fitas coloridas, as canetinhas e os gizes de cera que me deram.

Tudo bem, eu não preciso desanimar e desistir na primeira.

Logo depois veio a fase do “atirar currículos”, que, aliás, continua até agora. Apareceram vagas em lugares que todo publicitário tem fetiche pra trabalhar. Apareceram vagas em lugares que pagavam muito bem. Apareceram vagas para estagiário que você tinha que fazer tudo. Apareceram vagas que tinham nascido para o meu currículo; feitos um para o outro. Mandei para todas. Feedback? Imagina, todo mundo está muito ocupado hoje para analisar um currículo, mesmo que ele seja bom. O QI ainda é o caminho mais fácil para alguns lugares.

…e como tudo é aprendizado, posso falar com propriedade de causa que todo começo é realmente difícil como todos dizem, que respirar na Zona Sul do Rio é caro, que por mais que você seja capacitado e algumas empresas possam pagar, colocar uma pretensão salarial de R$ 3.000,00 é uma afronta; oferecer R$ 700,00 reais não é, que a exigência é altíssima e o seu inglês não pode ser apenas fluente, mas mandatório. Aprende que algumas vagas de emprego são para publicitário, mas você precisa ter conhecimento para fazer atividades de relações públicas, jornalista e RTV e se contentar em ganhar pouco. E que tem muita gente ruim ocupando cargos bons.

Estava pensando esses dias se levar minha mãe nas agências não seria o melhor portifólio ou curriculum vitae que eu poderia ter. Se minha avó fosse junto então, contrato na hora. Elas colocam tanta fé na minha pseudo intelectualidade que se dependesse das duas eu estava garantido entre os cotados para o Nobel.

Nesse período turbulento a gente se pega contabilizando o que vale ou não à pena. O que as pessoas valorizam ou não num currículo além de experiência profissional.

Depois de estudar a vida toda em colégio público, fazer magistério em um curso profissionalizante sendo bolsista do governo, concluir dois cursos de graduação (publicidade e propaganda e letras português e suas literaturas) quase ao mesmo tempo numa faculdade estadual sendo monitor de língua portuguesa dois anos, bolsista do MEC no Programa de Educação Tutorial (PET letras), ter experiência em agências, ter dado aulas numa faculdade, feitos cursos e mais cursos ….na hora que meu e-mail me diz “mensagem enviada” eu só consigo pensar: POR QUE NÃO EU?

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Sobre vidarealinventada

Chato, curioso e inconstante.
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2 respostas para Por que não eu?

  1. Sua mãe e sua avó estão longe! Mas vc pode me levar junto se quiser! Eu acredito, tanto quanto elas, na quantidade de sabedoria que tem aí dentro de ti!

  2. luciotbc disse:

    Que orgulho! Ver um amigo saindo da pequena terra de gelo, para desbravar e conquistar novos territórios, um dia vou passar pela mesma coisa e desejo tudo de bom para você…

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