Histórias de pessoas

A primeira vez que ouvi falar de Rosa Montero foi em 2007 quando fuçando nos livros de uma grande amiga achei um que se chamava A LOUCA DA CASA. O título por si só já chamava a atenção e a capa mais ainda (uma foto de família antiga, toda em branco e preto e em destaque uma menininha – em cores – com um vestidinho cor-de-rosa).

Achei o livro ótimo. Um estilo bem diferente do que já tinha lido na vida e na faculdade de letras. Uma mistura de autobiografia com ficção, ensaio e biografias diversas.

Durante a história ela fala que a imaginação era a louca da casa e conta uma passagem da sua vida três vezes e de forma diferente uma da outra e você nunca sabe qual aconteceu realmente e qual é pura imaginação; ficção. E cada vez que Rosa fala da sua vida ela aborda temas como loucura, amor, paixão e dentro desses temas ela ilustra com a vida de personalidades famosas dentro do universo literário: grandes romancistas, contistas, personalidades e outros escritores.

Com este último parágrafo não consegui descrever nem 1/5 do quão bom é o livro mas fica a dica para uma boa leitura.

Logo após A LOUCA DA CASA me interessei cada vez mais pela escritora espanhola. Coincidentemente me cadastrei eu um site de troca de livros e achei um chamado PAIXÕES (livro online), com uma capa linda com uma grande foto de John Lennon e Yoko Ono e outros rostos menores como o da Elizabeth Taylor e Oscar Wild. Nele Rosa Montero narra os casos de amor e paixão de casais famosos no mundo todo e da relação da paixão com outros sentimentos com dó, compaixão, completude, dependência e muitas e muitas vezes destruição do outro, egoísmo e egocentrismo. A cada história, vamos nos procurando ou num movimento de repulsa vamos julgando, e nos afastando das trajetórias dos tais casais. Eles, muitas vezes, levam suas vidas em níveis de altos e baixos, como todos, mas vivendo em suas intensas e profundas paixões que em alguns casos culminavam em violência física e em insanidade.

E por fim, ontem terminei HISTÓRIA DE MULHERES. Fantástico. Muitas delas, assim como suas histórias, desconhecidas por mim, mas de uma profundidade e poder de encantamento enorme.

Fiquei fascinando com a trajetória da escritora Agatha Christie que acaba vivendo aprisionada dentro dela mesma pelas condições da herança do vitorianismo. Uma senhora simpática que, ao casar-se pela segunda vez é proibida de acompanhar a filha em seu baile de debutante por não ser considerada “digna” de freqüentar tal lugar, escreve anotações de uma possível história passada num baile de 15 anos no qual as mães das debutantes começam a morrer misteriosamente, uma a uma.

Fascínio também pela genialidade de Simone de Beauvoir que conseguiu, ao lado de Sartre, ser uma mulher a frente do seu tempo, vanguardista que ao mesmo tempo era egoísta e megalomaníaca; queria ser adorada.

Com Zenobia Camprubí e Laura Riding tive uma espécie de estranhamento e encantamento. A primeira pela abdicação de sua vida e talento por um marido dependente ao extremo e sugador de todas suas energias. Já Laura, com um capítulo intitulado “A mais malvada” se considerava uma bruxa, um ser com poderes sobrenaturais, uma deusa que usa isso para conseguir seguidores de mentes frágeis para serem seus discípulos. Depois de anos dessa farsa ela perde sua influência sobre o marido, sobre o amante e a mulher dele e os encarando se joga do peitoril do quarto andar de um prédio.  Mesmo com quatro vértebras quebradas e a medula espinhal exposta, ela sobrevive sem ficar paraplégica, o que faz aumentar ainda mais sua paranóia de ser uma divindade. Um exemplo de uma grande mulher que usou todo seu talento para o mal.

E por fim a incrível história de Frida Kahlo que teve toda sua trajetória ligada a sua cama: onde nasceu, onde passou a maior parte de sua vida por causa de um problema em suas pernas e onde morreu. A cama era todo o seu universo; onde se arrumava como uma pintura; onde pintava seus autoretratos e onde se convalescia de um terrível acidente de proporções surreais no qual Frida, numa batida entre um bonde e um trem, é empalada por um ferro e tingida de dourado por um barril de purpurina que lhe cai no corpo todo; uma verdadeira “estátua de dor” como diz Rosa Montero.

Recomendo a leitura de todos e me encanto cada vez mais em saber a história dos outros…na existência e na ausência de padrões.

Ao ler História de Mulheres lembrei muito de uma produção brasileira chamada jogo de cena. Dirigida por Eduardo Coutinho a obra contém história de mulheres que atenderam um anúncio de jornal para contarem sobre suas vidas num teatro. Hora ou outra, atrizes como Andréia Beltrão, Marília Pêra e Fernanda Torres as interpretam contando as mesmas histórias (vídeo abaixo).

Há que critique as biografias justificando não passarem de mero mexerico da vida alheia e eu uso as palavras da Rosa Montero para justificar o contrário e a leitura dos tais livros e suas encantadoras histórias de pessoas:

‎”[…] Dado que a essência aleatória do mundo é cada vez mais evidente, e que o caos necessita de paliativos (os casamentos não duram para sempre, não nos esperam nem o céu e nem o inferno, já não existem ideologias nem religiões que ordenem convenientemente nossos dias), precisamos urgentemente de um mapa que nos mostre o caminho em meio a tanto vazio. E assim, ao conhecermos a vida dos outros, vamos confeccionando nossa própria e privada cartografia: onde estão os recifes de coral, onde o mar aberto e os baixios, onde os rochedos que podem nos destruir.[…]”


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Sobre vidarealinventada

Chato, curioso e inconstante.
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Uma resposta para Histórias de pessoas

  1. Cris disse:

    Ah adorei o post! Tinha esquecido mesmo desse documentário do Coutinho é lindo. Lembrei até que chorei quando vi. Quero muito ler o livro, vc e a Tati me convenceram!
    beijos

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