Desabafo

To de saco cheio.

E que fique claro que isso significa muita coisa. Me pergunto se é a velha história da idade. Aquela mesma que dizem que ao ficarmos mais velhos vamos ficando mais exigentes. A tal adjetivo eu acrescentaria, como sinônimo, a palavra chato.

Sou chato como forma de me preservar. Sou chato como carapuça para o grupo dos SEM NOÇÃO.

To cansado de meias verdades.

To cansado de gente fraca e pobre de personalidade. De rebeldes sem causa e de impertinentes de plantão.

To cansado de engolir sapos para me poupar de estresse, de discussões aparentemente infundadas, de guardar frustrações a sete chaves na minha cabeça para triturá-las e digerir mais fácil no estômago.

Quero minha gente mais perto. Quero gente que eu me reconheça. Quero meus Amigos de verdade perto, aqueles com “A” maiúsculo mesmo. Quero minha família, gente que me acrescente. Quero rir até chorar. Quero gente decidida e resolvida por que de complicado já basta eu.

To cansado de não me permitir mais momentos de fúria. De abrir minha válvula de escape mais vezes, de poupar.

Escrevo por que ainda não falei.

E ao escrever tenho na mente duas pessoas que falam por mim e que ficam sempre latentes em minha memória. Gabriel Garcia Marquez dando voz a Úrsula no Cem Anos de Solidão (que é um dos meus trechos favoritos, do meu livro favorito) representa bem tal indignação:

“…Lembrando-se destas coisas enquanto aprontavam o baú de José Arcadio, Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a designação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo. – Porra! – gritou. Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião. – Onde está? – perguntou alarmada. – O quê? – O animal! – esclareceu Amaranta. Ursula pôs o dedo no coração. – Aqui – disse.”

… assim como Marina Colassanti escreve em Eu sei, mas não devia:

“…A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

Talvez se indignar seja não desistir. Talvez seja, quem sabe, talvez…

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Sobre vidarealinventada

Chato, curioso e inconstante.
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Uma resposta para Desabafo

  1. V.L. disse:

    se pudesse, faria um empréstimo das suas palavras. comungo do mesmo pensamento. e reflito sem dividir meus pensamentos.

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